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“Memes têm até função terapêutica”, avalia sociólogo

Para Tarcísio Torres, humor é uma forma de reconforto em tempos de distanciamento social

Postado em 13/04/2020 às 13:20 |

O professor Tarcísio Torres: “Os memes contribuem para extravasar sentimentos negativos” (Foto: Fernanda Almeida, por videochamada)

Por Fernanda Almeida para Digitais PUC Campinas*

“Eles têm até uma função terapêutica”, avaliou o professor Tarcísio Torres Silva, sociólogo com doutorado em artes visuais, ao comentar a intensa circulação de imagens, vídeos ou arquivos de áudio que provocam risos e gargalhadas quando o destinatário abre a mensagem que lhe chega pelo smartfone. Neste período de distanciamento social – ou mesmo reclusão para alguns – os famosos “memes” chegam como um alento diante das dificuldades de realizar encontros presenciais com parentes e amigos em torno de uma mesa de jantar ou no balcão de um bar, pondera o docente.


Autora de uma pesquisa sobre memes, a estudante Kathelyn Aguiar Silva, 19 anos, da faculdade de jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), diz que brincadeiras desta natureza ajudam a “aliviar atenção de isolamento social pela qual as pessoas estão passando”. Tendo feito o estudo científico “E aí, ‘vamo’ fechar?”, sobre o uso de memes na construção e manutenção de relacionamentos amorosos, a jovem reconhece que nem sempre é adequado brincar com coisas sérias, mas entende que os memes estariam hoje contribuindo para aliviar a tensão de distanciamento social ao qual as pessoas estão se submetendo.

A estudante e pesquisadora Kathelyn: “O humor ajuda a diminuir o impacto da situação” (FOTO: Fernanda Almeida, por videochamada) 

“É pesado fazer piada em cima da morte de milhares de pessoas, mas, ao mesmo tempo, acredito que o humor ajuda a diminuir o impacto da situação”, pondera Kathelyn, acreditando que a circulação de memes permite transmitir e compartilhar sentimentos “sobre um assunto difícil de conversar”.

Para o professor Tarcísio Torres Silva, coordenador do programa de pós-graduação em linguagens, mídia e arte (Limiar), da PUC-Campinas, “os memes contribuem para extravasar sentimentos negativos, dando um alento para a população que está em casa”. Segundo ele, a ferramenta age de forma terapêutica quando provoca riso, bom humor ou empatia derivada da identificação em momentos difíceis.

“Os memes são elementos criativos no campo da comunicação, podendo ser questões ligadas a uma releitura, uma alusão e podem estar relacionados às figuras da linguagem”, descreve o sociólogo. A releitura, por exemplo, poderia ser associada à imagem de uma Monalisa descabelada por ficar reclusa na companhia de filhos gêmeos impedidos de ir à escola, como retratou um dos memes que circularam pela rede de computadores.

Ao contrário do que se poderia supor, o termo meme não nasceu na comunicação nem na informática. A expressão foi criada por um biólogo britânico, Richard Dawkins, em 1976, que usou o termo na obra “O Gene Egoísta”, onde foi definido como um gene de característica específica que passa de geração a geração. Apenas no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, os memes tornaram-se uma forma de expressão da comunicação, que pode ser composta por vídeos, textos e imagens que buscam transmitir o humor através da internet.


De acordo com uma pesquisa feita pela GloboSat, em parceria com a Consumoteca, em 2019, pelo menos 75% dos entrevistados no levantamento acham que o meme ajuda a aliviar o estresse do cotidiano e 46% compartilham memes que traduzem seus problemas pessoais.

Fáceis de serem produzidos – bastando criatividade, repertório e alguns comandos no computador – e de circulação tão viral quanto a pandemia em curso, os memes têm também seu lado negativo quando contém informações falsas. “Acho que pode ter impacto real e perigoso uma informação superficial que é consumida por meio de memes”, alerta o docente, chamando a atenção para desvios decorrentes de ações mal intencionadas.

A estudante Kathelyn também relata que, no autoisolamento, tudo indica que as pessoas encontram tempo para recorrer mais à criatividade, já que são inúmeras as autorias e coautorias em produções desta natureza. “As pessoas estão com muito tempo livre dentro de casa, e o interessante do meme é que você mesmo pode criar o seu e compartilhar para o seu grupo de amigos”, disse.

Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti - Edição: Laryssa Holanda

*Digitais é um produto laboratorial da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Professores responsáveis: Rosemary Bars e Carlos Alberto Zanotti. Direção da Faculdade de Jornalismo: Cyntia Andretta

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